Blog do Tas

Na noite de abertura de David Bowie em Londres

28 de março de 2013, 15:23

Escrito por marcelotas

por Rebecca Barreto, de Londres*
Especial para o Blog do Tas

“Boa noite madame, que tal começar com um The Jean Genie?”

Olhei para o lado. O sotaque britânico era a de um garoto, de vinte e poucos anos, com as sobrancelhas raspadas, a la Ziggy, vestido num tuxedo de garçom. Na bandeja, martinis verdes esfumaçantes – os famosos “Jean Genies”, uma mistura de vodca, suco de maçã verde, licor de lichia e muito gelo seco.

Peguei minha taça ainda um pouco assustada com a multidão de celebridades e endinheirados que circulavam no Victoria & Albert Museum. Conforme o Jean Genie ia invadindo minha corrente sanguínea, percebi que na verdade era parte de um grande fã clube, com o qual milhares de vezes, na adolescência e juventude, flertei em me associar oficialmente.

Foto: Neil Hall/Reuters

 A fauna dançava um set incrível dos 2 Many DJ’s (Stephen e David Dewaele) posando de posh-feel-vernissage-mode, como se o fervor do “será que ele vem” não estivesse queimando suas vísceras.

Como uma boa fã de Bowie que sou, tinha acabado de chegar em Londres, com um ticket de pobre mortal para o segundo dia oficial da exposição “David Bowie Is”, comprado pelo davidbowie.com – mas com um trunfo na manga: por pura sorte do destino, os DJs que tocavam naquela Preview Opening (2 Many DJ’s/Soulwax) eram os mesmos queridos para os quais eu tinha feito uns trabalhinhos no Brasil. Eles me colocaram para dentro da festa, e lá estava eu, com um jet lag monstro muito bem disfarçado embaixo da minha poderosa Dior Spray Foundation.

“Será que ele vem?” Assim o diretor alemão Martin Roth, do V&A Museum, começou sua fala, seguido pela curadora Victoria Broackes, que conheceu Bowie tempos atrás numa mesa em NY, quando o cantor foi cumprimenta-la por seu trabalho de curadoria independente e a fez cair em prantos. Completamente a vontade no meio a multidão de tuxedos e Laboutins, ela contava detalhes de sua juventude regada a cantorias hormonais e chorosas de “Rock ’n’ Roll Suicide”, “Life on Mars?” e “Heroes”.

Saquei então que eu, até ali uma estranha no ninho da High Society Britânica, estava rodeada de amigos Bowie-freaks como eu: do garçom de sobrancelhas raspadas a John Galliano, em quem literalmente tropecei ao entrar, vestindo Bowie T-Shirt, passando pelas centenas de senhorinhas contemporâneas ou sósias de Twiggy, ex modelos dos anos 60 que provavelmente foram namoradas de David. Algumas delas até exibiam suas mechas azuis, pantalonas floridas e plataformas. Ali éramos todos súditos, a espera de Bowie. Claro, o chiquérrimo e resguardado camaleão não apareceu.


Fotos: Rebecca Barreto

O título da exposição “David Bowie is” diz muito sobre a pretensão de não cobrir a trajetória de Bowie, mas mostrar aspectos da vida multifacetada do ídolo de muitas gerações, sempre no vórtice de suas criações.

Logo na primeira sala preciosidades do início de sua carreira. A banda era ainda a Davie Jones & The Lower Third: os primeiros singles, os primeiros recortes de jornais, fotos da família, objetos e fatos da sua intimidade. Na sequência, o impacto da chegada do homem à lua na mente do artista: ali estão os croquis musicais do disco Space Oddity, as criações de personagens como Major Tom, objetos da NASA que ele colecionava, televisão redonda, pôster da Lua, seu encontro com Andy Warhol, quando ainda era um jovem cantor, até chegar num explosivo corner do primeiro figurino de Ziggy Stardust. O manequim que o veste está cercado de projeções do show emblemático, que são espelhadas de forma ultra-sincronizada no audioguide Bluetooth do visitante.

Quem chega no Ziggy, empaca e suspira. Comigo não foi diferente. Ainda meio em transe, ouvi alguém ao meu lado soltar um “UAAAAU I can’t believe, it’s fucking Ziggy”. Era a atriz inglesa Tilda Swinton, vestida como uma Thin White Duke. Ela tinha anunciado nos jornais que iria na abertura homenageá-lo e cumpriu: ali estava a meu lado, de joelhos, como todos nós, discípulos do mestre.

Depois de Ziggy, a questão cronológica perde importância e a exposição navega com incrível sofisticação pelas várias faces do gênio. Imagens projetadas em objetos tridimensionais, telas gigantescas e transparentes com manequins ao fundo que aparecem e somem, shows que conversam entre si, cenários e janelas unindo salas, enfim todo um aparato tecnológico é usado para mostrar preciosidades como os esboços de “Heroes” e “Changes”. Depois, o momento em que Bowie aprendeu com Syd Barrett a fazer suas composições por recortes merece menção de destaque para compreender a cabeça deste artista. A sala dedicada ao período rehab em Berlim, onde a pintura e as artes visuais o fizeram voltar para música, as parcerias incríveis com Brian Eno, a chave de seu apartamento “detox-berlin”, dividido com Iggy Pop, o que me fez pensar em como deve ter sido a sua rotina naquele período simples da sua vida, pós divórcio.


Vídeoclipe da música “The Stars (Are Out Tonight)”, do novo disco The Next Day,
com participação da atriz Tilda Swinton

Uma sequência de bilhetes e croquis para Alexander McQueen narra como ele quer o figurino do álbum Earthling. Segue correspondência com outros artistas gráficos e produtores de capas de discos, cenários e editores de seus videoclipes. Fica evidente: Bowie tem domínio total sobre toda sua obra.

Mesmo desavisados, que entram na exposição pensando rever a vida de um roqueiro qualquer, saem tocados pela força do trabalho de Bowie, um artista que ajudou a plasmar as três décadas mais expressivas da música até hoje. Um cara que usou maquiagem e batom dourado quando chocar a mãe era só deixar o cabelo crescer. Um cantor que soube ser o melhor cantor, mostrando que moda e arte são artes dialógicas e imprescindíveis para a música. Um artista que, embora se diga aposentado, é atual sempre, ontem e hoje.

É por isso que David Bowie is. E os Jean-Geanies Martinis que o digam.

*Rebecca Barreto é designer e autora da grife CartaBranca

  1. Cristiano Paulo 1 de abril de 2013 at 10:50

    Enfim, só o que tenho a dizer, é que David Bowie simplesmente fascina a todos os adoradores da boa cultura pop mundial, tenho quardado a sete chaves uma t Shirt que foi jogada por ele na Turne Sound And Vision em São Paulo 1990, quem estava lá vai se lembrar desta cena…..Bowie simplesmente o melhor artista de todos os tempos…………….Parabéns pela reportagem Rebecca, abraço ao Tas que sou muito fã e um obrigado a David Bowie!!!!

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