Blog do Tas

Muro de cemitério vira galeria de arte pública

18 de setembro de 2013, 10:55

Escrito por marcelotas

Imagens: FotoProtestoSP 

O movimento FotoProtestoSP ocupou uma parte do muro do cemitério do Araçá, em São Paulo, e o transformou numa autêntica galeria de arte pública ao ar livre. Neste primeiro ato do coletivo, no último feriado de 7 de Setembro, participaram 22 fotógrafos. O FotoProtestoSP tem células em outras capitais e a ideia é ocupar espaços públicos para reavivar a memória dos protestos que vem acontecendo em todo o país nos últimos três meses. O grupo também quer discutir o papel da fotografia como instrumento de comunicação de massa fora dos canais ditos normais e tradicionais.

Só no final de semana onde as fotos ficaram expostas no muro do cemitério paulistano mais de 1.500 pessoas passaram a seguir a página do FotoProtestoSP  no Facebook e o manifesto oficial foi lido por mais de 5,5 mil.

Depois de uma semana de ocupação, a administração do cemitério do Araçá decidiu remover as fotografias por causa da reforma que será feita em breve no local para o feriado de Finados. O coletivo, porém, foi informado que a administração do cemitério ficou surpresa de forma positiva com o ato e que, após tal data, estarão abertos ao diálogo para que uma nova exposição volte a ocorrer no mesmo local.

Abaixo, o Blog do Tas entrevista Maurício Lima, um dos fotógrafos responsáveis pela criação do coletivo:

*** Maurício Lima é um dos principais fotógrafos brasileiros de guerra em atividade. É reconhecido por seu trabalho no Afeganistão, Líbia e Iraque com direito a prêmios internacionais como o 2º lugar no prêmio Pictures of the Year International de 2004 e o prêmio da Revista Time de fotógrafo de agência do ano. Trabalhou por mais de 10 anos para a agência francesa France Presse.

 

Como surgiu a ideia de transformar os registros fotográficos dos protestos numa declaração pública de insatisfação?
Surgiu a partir de uma conversa entre amigos, todos fotógrafos atuantes nas manifestações, em sua maioria por iniciativa própria, sobre manter acesa na rua a chama que levou tantos brasileiros a protestar por condições sociais e políticas mais dignas. Na opinião do grupo, um evento necessário e uma discussão que não deve acabar.

Uma das intenções é deixar esse sentimento de indignação presente nas ruas e na cabeça das pessoas mesmo quando não estão ocorrendo os protestos?
Exatamente. Porque pouco mudou além da redução das tarifas no transporte. Uma cidade muda não muda. E não são só 20 centavos, são por direitos, como diziam excelentes cartazes nos protestos de junho.

Quais são os principais fotógrafos envolvidos no projeto?
Somos em 22 fotógrafos por enquanto, de recém-formados aos mais experientes, em sua maioria independentes, e todos estão presentes nas manifestações pelo país desde junho. Decidimos assinar coletivamente. Somos o FotoProtestoSP.

A ideia é espalhar o FotoProtestoSP pelas principais capitais num esquema colaborativo, no qual qualquer fotógrafo pode fazer parte, como acontece com a Mídia Ninja por exemplo?
Não vemos comparação com Midia Ninja, que é um projeto com características diferentes. Entretanto, existe uma horizontalidade semelhante. Já conversamos com os fotógrafos do Rio, onde provavelmente nascerá o grupo FotoProtestoRJ. Belo Horizonte também nos procurou e iremos viabilizar o manifesto com eles.

Além das intervenções como a feita no muro do cemitério, quais são os outros desdobramentos possíveis para o FotoProtestoSP?
Por enquanto, estaremos ali. Infelizmente, nosso ato teve 10 fotos rasgadas na manhã do sábado, 7 de setembro. Voltamos na noite de segunda para repor, mas dois dias depois a administração do cemitério resolveu retirar nossa exposição por causa de uma reforma para o feriado de Finados, em 2 de novembro. Estranhamos. Se possível, gostaríamos de adotar aquele espaço para nossas manifestações fotográficas e pacíficas, além de outras áreas da cidade.

Qual o papel da fotografia como instrumento de comunicação de massa? E por que ela perdeu força dentro dos canais tradicionais de mídia?
O fotógrafo é uma peça imprescindível para a sociedade. Essa fotografia que praticamos, a que registra as grandes mudanças da história e que deixa um importante documento na memória de um país, é e sempre será um poderoso canal de comunicação capaz de acelerar as grandes mudanças sociais e políticas. Não vemos como uma perda de força dentro da imprensa. A fotografia do jornalismo diário ainda tem seu espaço, mesmo que sem a dignidade e o respeito que deveriam ter. Vemos nossa fotografia caminhar entre os cidadãos de forma autoral, um modo de nos expressar totalmente desconectado do viciado alinhamento editorial da mídia tradicional do país.

Existe uma preocupação em tornar os registros destes manifestos da população em algo menos efêmero, já que as mídias sociais e veículos de comunicação estão cada vez mais dinâmicos e sobrecarregados de informações, muitas delas nem verdadeiras?
Sim, menos efêmero. O simples ato de parar 10, 15 segundos em frente à cada fotografia exposta em uma parede, na atmosfera da cidade, para refletir sobre aquele momento é algo único, importante para as pessoas pensarem sobre a mensagem ali transmitida. Para nós, fotógrafos, algo mágico. Por outro lado, existe sim uma péssima tendência de parte da grande imprensa, que tem sido colocada em xeque nos protestos por canibalizar a informação do dia anterior. Nossas fotografias caminham num outro ritmo, dialogam de maneira única com as pessoas, passam uma outra mensagem descontextualizada de títulos e matérias tendenciosas, e esse também é um dos nossos objetivos.

  1. Ótima idéia. Porém, aqui em Piracicaba-SP isso já é feito há mais de 3 anos e são pinturas lindas, sacras e/ou artísticas. Vale a pena conferir no google streetviewer …………2488 Avenida Independência, Piracicaba, São Paulo, Brasil………

  2. Aqui na minha cidade (Piracicaba), o muro de um dos cemitérios se tornou um painel para pintura de artistas desconhecidos da cidade… cada parte do muro tem uma pintura diferente.. é muito interessante.. pelo menos, acaba com as pichações e enfeita a cidade!!!

  3. Juro que quando li o título, pensei que seriam fotos dos familiares. Mas me surpreendi quando vi quais eram. De muita criatividade e inteligência. Parabéns ao idealizador.

Deixe um Comentário

Aviso aos navegantes: os comentários são parte fundamental de qualquer blog. Eles servem para ampliar, criticar e completar o texto do autor.

No "Blog do Tas", todos os comentários só são publicados DEPOIS de passar por moderação.

NÃO publicamos:

  1. Comentários com palavrões ou agressões gratuitas.
  2. Comentários fora do assunto.
  3. Comentários com auto-propaganda ou propaganda de terceiros.

Se não estiver nas categorias acima, sua opinião será liberada o mais breve possível.

Bem-vindo e obrigado pela participação!

Connect with Facebook

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>